Senior Living é mesmo o futuro?
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada sobre como queremos envelhecer
Por Paulo Maier
Nos últimos meses, tenho acompanhado com atenção uma conversa que começa a ganhar força no mercado imobiliário brasileiro: o Senior Living. Faz sentido que o assunto esteja crescendo. O Brasil está envelhecendo, e isso muda a forma como teremos de pensar moradia, serviços, saúde, mobilidade e convivência nas próximas décadas.
Segundo as projeções mais recentes do IBGE, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Em 2070, a expectativa é que esse grupo represente cerca de 37,8% da população. Portanto, existe uma transformação demográfica enorme acontecendo diante de nós. O mercado imobiliário precisa olhar para ela.
Minha dúvida está em outro ponto.
Será que a melhor resposta para uma população que está vivendo mais é criar empreendimentos destinados exclusivamente a pessoas mais velhas?
Eu ainda não estou convencido disso.
Entendo perfeitamente os argumentos a favor do Senior Living. Segurança, acessibilidade, serviços próximos, assistência, áreas de convivência e uma arquitetura adaptada às diferentes fases da vida são atributos importantes. O problema começa quando confundimos adaptar a cidade e os empreendimentos à longevidade com separar as pessoas pela idade.
Tenho a impressão de que uma pessoa que chega aos 60, 70 ou 80 anos não necessariamente quer viver em um lugar que a lembre o tempo inteiro da própria idade. Ela pode querer exatamente o contrário: continuar participando da vida.
Ver crianças correndo. Encontrar pessoas mais jovens. Tomar um café. Ir ao mercado. Receber a família. Caminhar. Trabalhar. Encontrar os vizinhos. Fazer parte de uma comunidade que não seja definida por uma faixa etária.
Talvez o futuro da longevidade não esteja no isolamento confortável. Talvez esteja na integração.
Um projeto em Singapura ajuda a enxergar essa discussão por outro ângulo. O Kampung Admiralty, projetado pelo escritório WOHA, reúne em um mesmo complexo apartamentos para idosos, serviços de saúde, comércio, espaços comunitários e áreas verdes. O próprio escritório descreve o projeto como um modelo de “vila vertical”, pensado para favorecer vínculos intergeracionais e o envelhecimento ativo. Em 2018, o projeto recebeu o prêmio World Building of the Year no World Architecture Festival.
O que mais me chama atenção ali não é a arquitetura como objeto. É a arquitetura como provocadora de encontros.
Em vez de retirar o idoso da vida urbana para colocá-lo em um ambiente preparado exclusivamente para ele, o projeto aproxima as coisas. Saúde está perto. Comércio está perto. áreas de convivência estão perto. Outras gerações estão perto. A vida continua acontecendo ao redor.
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira de pensar produto imobiliário.
Quando projetamos exclusivamente a partir das limitações que uma pessoa poderá ter no futuro, corremos o risco de criar um produto que comunica limitação. Quando projetamos para longevidade, podemos fazer algo diferente: criar ambientes capazes de acompanhar as pessoas durante várias fases da vida.
Um bom apartamento pode ter circulação mais confortável sem parecer adaptado. Um banheiro pode ser seguro sem ter aparência hospitalar. Um condomínio pode incentivar caminhadas, contato com a natureza, atividade física e encontros sem precisar se apresentar como um empreendimento para idosos. A tecnologia pode aumentar a segurança sem transformar a casa em uma clínica.
É aqui que acredito existir uma oportunidade enorme para incorporadores e arquitetos.
Talvez tenhamos de parar de perguntar apenas “o que o público sênior quer comprar?” e começar a perguntar “como as pessoas querem viver quando tiverem 70 ou 80 anos?”.
São perguntas parecidas, mas produzem projetos muito diferentes.
A primeira tende a criar uma categoria imobiliária. A segunda obriga a pensar sobre vida, autonomia, pertencimento, relações e cidade.
E existe ainda um componente que considero fundamental: convivência entre gerações. Uma cidade saudável não deveria funcionar como um conjunto de ilhas separadas por idade. Crianças aprendem com idosos. Idosos permanecem conectados à energia das gerações mais novas. Famílias se encontram. Vizinhos criam vínculos. A arquitetura pode facilitar ou dificultar tudo isso.
Por isso, acompanho o crescimento do Senior Living com interesse, mas também com uma dose de questionamento. Não porque a demanda não exista. Ela existe e será cada vez maior. Minha provocação é sobre qual produto vamos entregar para atendê-la.
O mercado imobiliário acertou ao perceber que a longevidade será uma das grandes forças que transformarão nossas cidades. Agora precisamos ter cuidado para não responder a uma mudança tão profunda simplesmente criando mais uma segmentação de produto.
Talvez o grande empreendimento para a terceira idade seja justamente aquele que nunca precise ser chamado de empreendimento para a terceira idade.
Um lugar onde seja possível envelhecer com segurança, autonomia e conforto, mas, principalmente, continuar pertencendo à vida que acontece ao redor.
Fontes de apoio editorial
• IBGE. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação: revisão 2024. Dados sobre envelhecimento populacional e projeções até 2070.
• WOHA. Kampung Admiralty. Descrição oficial do projeto, integração de usos, envelhecimento ativo e convivência intergeracional.
• World Architecture Festival / WOHA. Kampung Admiralty — World Building of the Year, 2018.